Tratamentos distintos a médicas na CPI acentuam contraste entre depoimentos


Os depoimentos das médicas Nise Yamaguchi e Luana Araújo à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado nesta semana repercutiram com críticas e elogios tanto de grupos ligados ao governo Bolsonaro quanto de seus opositores, e em sinais trocados para cada uma.

O saldo das convocações sinaliza que membros do colegiado que querem a responsabilização do chefe do Planalto não pretendem arrefecer a postura política nas inquirições. Governistas, por sua vez, saem derrotados da tentativa de tirar proveito da imagem de Yamaguchi como uma defensora coerente do chamado “tratamento precoce” de pacientes do novo coronavírus.

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O tratamento dado à oncologista por senadores de oposição e independentes, que formam maioria na comissão, foi criticado por ter sido considerado rude e humilhante. Ela foi interrompida por diversas vezes e cobrada a dar respostas mais concisas e diretas. Até mesmo o senador Jorginho Mello (PL-SC), aliado do governo, se alterou e pediu que ela dispensasse “os floreios” e parasse de “se explicar demais”.

O senador Otto Alencar (PSD-BA), médico de formação, foi um dos mais criticados por ter feito, de forma contundente, perguntas básicas sobre doenças virais a Yamaguchi para testar seus conhecimentos sobre o coronavírus. Ele, no entanto, a interrompeu por diversas vezes, dificultando a conclusão de falas. “A senhora não sabe nada de infectologia. Nem estudou, doutora. A senhora foi aleatória mesmo, superficial”, disse, diante da falta de algumas respostas.

O congressista disse ainda que Yamaguchi estava apostando “no escuro” ao recomendar o uso de hidroxicloroquina.

O presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), chegou a dizer que Yamaguchi estava mentindo quando ela ratificou falas anteriores em que defendia o tratamento precoce como forma de salvar vidas na pandemia e que, por isso, a vacinação de toda a população não seria necessária. Ele chegou a pedir para que, quem estivesse assistindo à CPI, não ouvisse os dizeres da médica.

Uma assessora da médica foi expulsa da sala da CPI ao confrontar Aziz. Jane Silva ouviu do senador que a médica estava “mentindo descaradamente” e reagiu. Disse que, como mulher, estava “assustada” com a “grosseria dos senadores” e que as constantes interrupções às falas da médica eram um “absurdo”. Aziz então solicitou que a Polícia Legislativa a retirasse da sala.

A senadora Leila Barros (PSB-DF) chegou a pedir aos colegas que parassem de interromper o depoimento da médica, mas também foi cortada por Aziz, que a criticou por estar chegando apenas naquele momento à CPI.

Responsabilização

Para o advogado especializado em saúde Silvio Guidi, sócio do escritório Vernalha Pereira, as respostas de Yamaguchi mostraram que ela fez pesquisa clínica fora do mundo científico com a cloroquina. Ele considera que o depoimento poderia ensejar, inclusive, notificações pelo CRM-SP (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) ou pelo CRM-DF (do Distrito Federal) —a médica está registrada em ambos. 

O consultor diz que, se os órgãos constatarem irregularidades no exercício da medicina a partir de informações prestadas à CPI ou requisitadas à própria Yamaguchi, poderiam aplicar sanções como uma censura pública ou a suspensão temporária do registro.

Já o depoimento de Luana Araújo teve menos interrupções e mais condescendência por parte dos opositores e independentes. Ao longo de suas falas, os congressistas diziam em alguns momentos que a desistência de nomeá-la provava que o governo não estava interessado em “quem tem capacidade para gerenciar essa crise”.

Estão interessados em quem compactua com alguém que, desde o primeiro momento, acreditou no tratamento precoce e na imunização de rebanho, disse Aziz. Para ele, o episódio “prova” que Queiroga não tem autonomia no ministério, embora tenha afirmado isso à comissão.

Politização

Para Guidi, a pergunta que o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), fez depois de exibir um vídeo do Poder360 sobre as falas de Bolsonaro ao longo do primeiro ano da pandemia no Brasil é exemplo de uma atitudeexcessivamente política do grupo majoritário no colegiado.

Dra. Luana, essas declarações, de qualquer cidadão, qual o impacto que teria em uma pandemia?”, indagou o amapaense. A infectologista iniciou sua resposta pontuando que não gostaria que sua participação ou ela própria fossem utilizadas de uma forma que não fosse técnica.

Guidi aponta que a CPI tem um objetivo político conhecido, mas não declarado de abrir o caminho para o afastamento de Bolsonaro do cargo. “Quanto mais ela focar na investigação técnica, mais chances tem de chegar ao objetivo político de formar um arsenal de provas capaz de constranger o presidente da Câmara, Arthur Lira, a abrir um processo de impeachment”, avalia.

No depoimento de Araújo, foram os governistas que discordaram de informações apresentadas por ela. Marcos do Val (Podemos-ES) chegou a dizer que aprendeu que há “canibalismo na área médica” e que “é fantástico como a senhora se coloca como dona da verdade”. Durante sua fala, ele voltou a defender uso de remédios como a cloroquina.

Após a fala do capixaba, Araújo disse que estava na CPI representando uma classe médica inteira e que respeita o trabalho dos colegas, mas disse que existe diferença entre “respeito” e “responsabilização”.

O senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), principal defensor da hidroxicloroquina, chegou a insistir que há estudos que comprovam a eficácia do medicamento. A infectologista retrucou que esses materiais são relevantes, mas têm falhas e, por isso, é importante obter um volume maior de evidências antes de se adotarem os tratamentos.

Na avaliação do advogado Silvio Guidi, em que pesem os tratamentos diferenciados a cada uma das médicas, o proveito político vislumbrado pelos governistas de apresentar a imagem de uma defensora coerente da cloroquina acabou desmontado pelo contraste de apenas 24 horas com o depoimento de Araújo.

Depois do depoimento, o vice-líder do governo no Congresso Marcos Rogério (DEM-RO) publicou em sua conta no Twitter um vídeo editado de uma pergunta que fez à infectologista sobre possíveis tratamentos para evitar o agravamento do quadro de pacientes de covid-19. 

Pela versão editada, o senador pergunta qual seria o protocolo indicado para a fase inicial da doença e, depois de um corte abrupto, a gravação pula para um trecho mais avançado da resposta de Araújo, em que ela fala do diagnóstico precoce da covid-19 para melhorar o tratamento de eventuais comorbidades de pacientes. A edição insinua que a infectologista estaria defendendo o que governistas vêm chamando de “tratamento precoce”.

As notas taquigráficas do Senado, no entanto, evidenciam que Araújo começa sua réplica esclarecendo que não há nenhuma ferramenta farmacológica que possa ser utilizada de forma inicial que impeça a progressão da doença, como sugere o vice-líder do governo.

“Foi uma ducha de água fria [para os governistas]. Marcos Rogério se rendeu. Toda hora que chegavam com uma pergunta de pegadinha, ela acabava com qualquer dúvida ou falta de compreensão”, ressalta Guidi.

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