Texto: Ana Paula Paixão / Fotos: Hudson Brazil

Você já deve ter ouvido falar em transplante de medula, coração, córnea, rins, fígado… Mas você sabia que existe também o transplante de tecido musculoesquelético e que a doação de apenas um doador cadáver pode beneficiar aproximadamente 30 pessoas?
O cobrador de transporte coletivo, Rafael Pereira, 31 anos, sofreu um acidente automobilístico grave em abril deste ano. Enquanto trabalhava, precisou retirar o veiculo do acostamento, quando foi atingido por um carro em alta velocidade, que era conduzido por um motorista embriagado. O pai do pequeno Moisés, de 1 ano e dez meses, foi arremessado a uma altura de aproximadamente 10 metros. Rafael sofreu várias lesões na face e na perna. “Ao chegar na Santa Casa de Montes Claros, precisei suturar a perna e a boca”, lembra. Rafael nunca imaginou que pudesse passar por uma situação semelhante. Após cinco meses do acidente e se recuperando em casa, ele foi o primeiro paciente da Santa Casa Montes Claros a passar por um transplante de Tecido Musculoesquelético, realizado no último dia 16 de setembro. “Meu joelho ainda doía muito. Quando o Dr. Gustavo me falou da possibilidade de fazer o transplante, fiquei muito aliviado por saber que não precisaria usar enxerto. Tenho conhecidos que relatam dor até hoje na região que precisaram tirar o enxerto”, revela.
O chefe do Serviço de Transplante de Tecido Musculoesquelético da Santa Casa, o ortopedista e traumatologista, especialista em cirurgia de joelho, Dr. Gustavo Rocha, explica que o transplante do Rafael consistiu em uma reconstrução multiligamentar no joelho. “Ele teve três, dos principais ligamentos do joelho rompidos. A reconstrução com o uso de tecido de cadáver, tem como foco permitir que seja estabelecida novamente a função do joelho do paciente sem precisar retirar enxerto do próprio corpo”, conta. Ele ainda lembra que, em relação ao procedimento com enxertos, existem limitações. “Sem o tecido  homólogo, o tecido de cadáver, não seria possível reconstruir todos esses ligamentos. Antes o paciente era tratado parcialmente, ou seja, eram feitas cirurgias de reconstrução de alguns desses ligamentos, mas não todos. Com o advento dos tecidos de banco, conseguimos fazer as reconstruções, que antes não eram possíveis, e assim, dá uma melhor qualidade de vida para essas pessoas”, complementa.
Em Minas Gerais existem quatro serviços credenciados pelo Ministério da Saúde como hospital transplantador, sendo dois hospitais em Belo Horizonte, um em Uberlândia e agora a Santa Casa de Montes Claros (Portaria Nº 913, de 30 de Julho de 2019).  Outra novidade no hospital é em relação ao ultracongelador. “Ele permite que possamos programar a cirurgia. Por exemplo, no caso do Rafael, o tecido chegou em Montes Claros via transporte aéreo na tarde de domingo, 15/09. Com o ultracongelador, podemos armazenar o tecido e realizar cirurgia em data agendada”, esclarece.
Para o Rafael, que teve alta no dia seguinte do procedimento, as expectativas são as melhores: “agradeço a Deus por tudo. Agora é só repousar, fazer a fisioterapia e voltar a trabalhar em meados de janeiro”.
Banco de Tecidos Musculoesqueléticos
O Banco de Tecidos Musculoesqueléticos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), do Ministério da Saúde, é responsável pela captação, processamento e distribuição de ossos, tendões e meniscos para utilização em cirurgias de transplantes na área da ortopedia e odontologia. Localizado no Rio de Janeiro, o Instituto possui equipes preparadas para realizar captações 24 horas por dia, 365 dias do ano.
O procedimento pode ser feito na Santa Casa Montes Claros via SUS, convênios e particular.
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