COLUNA - 11/08/2011

 

INSENSATO E IRRESPONSÁVEL CORAÇÃO.

Sempre fui da opinião de que ficção é uma coisa e realidade é outra. E uma não tem nada a ver com a outra... Mas, assistindo ao capítulo de ontem da novela das 21h, tive a certeza de que, nos dias de hoje, dada a influência da mídia, a invasão da internet, por meio das redes sociais, a cena de agressão que levou à morte um personagem gay, chocou-me, causou-me asco e repugnância e de forma incisiva repercutirá, ressonante como um incentivo, “um doce”, aos insultos primitivos adormecidos nesses mal resolvidos homens que tentam resolver seu “problema” com socos e pontapés ofertados aos homossexuais.
Conversando um dia desses com um amigo meu, dizíamos: “Será que não é mais fácil e mais elegante para com a população que nos víssemos um casal de iguais terminando bem, que pudéssemos ver esse garoto que, na novela, já fugiu para o RIO, porque apanhava do pai por causa de sua orientação, terminando bem?” Arranjando um trabalho? Feliz? Sorridente? E já é a segunda vez em que a novela expõe a questão. O Chicão também já foi espancado por outros vagabundos, ditos “MACHOS”.
O grande pseudoargumento é: Ahhh, mas a novela só está expondo o que já acontece. Podre essa ideia. Imagine se todo dia tivermos que ver nossas mazelas sociais escancaradas em horário nobre? Depois de um dia de trabalho, cansados, chegamos às nossas casas para ver a desnutrição em áreas longínquas do Norte do país, o crack no sul e sudeste (que escraviza a cada dia mais crianças), o desemprego e a marginalização que assola nossas ruas? Já que é ficção, que seja bonita, fantasiosa, que sugira algo positivo.
É certo que nosso povo precisa de mais educação, muito mais e esse tipo de cena deseduca. Não contibui em nada. Os diálogos estabelecidos pelos personagens sobre o assunto são fracos e desarticulados. Pior: são despolitizados. Não gosto muito de novelas. Não perco o meu tempo, dando audiência a esses escritorezinhos meia-boca. Pois, diferentes deles, que ganham um salário bem grande para produzirem tamanhos despropósitos sociais, eu preciso dar aulas toda noite e, dentro de minhas salas de aula, dizer aos meus alunos não que deixem de assistir ao que quer que seja: de Ana Maria ao BBB, mas que filtrem as bobagens que são ditas e construam um senso crítico aguçado.
Não sou incoerente. Se disse que não gosto de novelas, é porque não as aprecio mesmo. Só resolvi ver essa, de vez em quando, é claro, porque há esse mal-construído casal gay. Aliás, em todos esses folhetins sempre que se joga algum homossexual, ou ele é CARICATO, ou tem algum tipo de problema de aceitação por si mesmo ou pelos outros, ou é alvo de discriminação de alguma ordem.
O que me deixa menos preocupado é que grande parcela da população é do bem, trabalha duro e não é afeita à violência. Contudo, por outro lado, existe uma parte de jovens de mentes ociosas presos a essa oferta de imundícies que o mundo globalizado oferece, fáceis de deixar levar por atitudes que “dão IBOPE” e que parecem normais e, portanto, fortes candidatos a imitarem o ato. DEUS que nos livre de qualquer tipo de ataque gratuito, explicito, implícito ou sugerido.
Quando a ficção pensa que contibui para que algo ruim deixe de acontecer, abordando este tema pelos cotovelos, o que acaba fazendo é o contrário: incentivando-o.
Se um dos dois parceiros da trama morrer, venceu o MAL. E, por mais que não seja realidade, alguns irmãozinhos nossos não têm discernimento para distinguir a ficção da realidade. Eu tenho. Prefiro a realidade e não careço de droga de romancezinho barato como lazer. Posso fazer de minha sociedade melhor, longe dessas baboseiras televisivas.

Francisco Caracas, professor de Língua Portuguesa e Redação na rede Prisma de ensino e Intercursos (preparatórios para concursos)

 

 
 
 

 

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